Mercúrio, Segredos e Leituras – Janeiro, 2010

Este texto reproduz a palestra apresentada no IV Circuito Nacional de Astrologia da CNA/SP, em novembro de 2009, abordando aspectos do filme O Leitor e as funções do Mercúrio astrológico.  Na primeira parte, ele mostra os critérios para a escolha de Mercúrio e na segunda analisa o filme utilizando esse símbolo astrológico.

I- O TEMA DO IV CIRCUITO E A ESCOLHA DE MERCÚRIO

O mote do IV Circuito de 2009 (Articulações Astrológicas) deu-me oportunidade de conversar com o cinema. A palavra articulações nos lembra conexão, ponto de união entre dois segmentos, nó. Abertura para aproximação com outra linguagem diferente da astrológica – zona de trocas - ponto de união com outra área da cultura, nó de significados a serem explorados, verdadeiro desafio.
Por outro lado, a expressão ‘novos tempos’, também no título do circuito, tem sido utilizada há muito tempo (desde os anos 60 pelo menos) e seu conteúdo depende de contextos. A compreensão de hoje em dia está ligada a aspectos da contemporaneidade: ética e cidadania, políticas de inclusão, partilha de conhecimentos. Assim, talvez preparar-se para viver os novos desafios seja munir o indivíduo de recursos para entender o complexo mundo tal como ele é atualmente. Meu pensamento foi nessa direção e escolheu Mercúrio para focalizar os desafios pessoais, que era o tema da mesa de que participei.
Mercúrio nos ajuda nessa tarefa de articulação pessoal no mundo contemporâneo. É grande sua importância na representação astrológica: é o mais próximo ao Sol e à Lua. Imaginemos que depois do Sol (Leão) e da Lua (Câncer), que representam respectivamente o fogo e a água, segue Mercúrio, representando o ar e a terra, já que é regente de dois signos, Gêmeos e Virgem, ambos da cruz mutável. Mercúrio, portanto, fecha a quadruplicidade dos quatro elementos: água, terra, ar e fogo. Depois de termos uma identidade (Sol) e um corpo emocional (Lua), estamos prontos para nos expressarmos no mundo (pensamento e linguagem). Mercúrio é esse instrumento que nos capacita para tal tarefa.
A partir dele, criamos nosso mundo e forjamos nossa materialidade, a partir de preceitos e pensamentos (organizadores da realidade pessoal). Será, com certeza, significativo que essa posição única de Mercúrio e também sua dupla representação das duas pontas da cruz mutável. Ele nos oferece a base estrutural de nossa individualidade, entre outras habilidades a de comunicação e a de flexibilidade, que são importantes para nossa experiência de vida. Tais competências promovem a maneira como lemos o mundo, ou ainda como trabalhamos as funções cognitivas da aprendizagem.
Mas ele é personagem da Astrologia e também da Mitologia, misturando-se seus significados. Daí que ele está disperso no imaginário de nosso repertório cultural, surgindo espontaneamente por aí, em conversas e situações variadas. E o cinema é o lugar em que os símbolos são eficiente ilustração para compreendermos tais significados. A representação artística pode ser o espelho da vida, pequeno recorte do universo.
Para refletir a respeito de Mercúrio, escolhi o filme O leitor, do diretor Stephen Daldry; baseado no livro de Bernhard Schlink (1995) de mesmo nome, com Kate Winslet( que lhe valeu o prêmio de melhor atriz no Oscar de 2008), Ralph Finnes e David Kross.

II- O FILME O LEITOR, MERCÚRIO E SEGREDOS
 
Antes de assistir ao filme O Leitor, ouvi comentários que me levaram a pensar tratar-se de história ligada a nazismo e a judeus. Era sim, em parte. Mas, ia mais longe que isso, abrangendo muitos outros temas. Alguns aspectos da trama tocaram profundamente: a alfabetização e a experiência dos personagens com a leitura. Além disso, impressionou-me a comunicação (ou a falta dela) entre pessoas e os segredos. Parecia-me que os significados de Mercúrio andavam por aí, habitando todos esses aspectos da narrativa.
A história do filme é longa: um encontro entre um adolescente e uma mulher adulta, uma relação de verão, o desenrolar da vida dos dois, posterior a esse encontro. Surpresas em reencontro dele com ela em tribunal de júri. Depois da prisão de Hanna, a experiência da alfabetização e o final escolhido por ela, tão dolorido. Para Michael, as lembranças e o resgate da vida inteira no relacionamento com a filha.
A fala do professor de Michael bem no início do filme, a respeito da Odisséia de Homero nos dá pista importante: “O segredo é fundamental na literatura ocidental. Podemos dizer que a trama se desenvolve a partir de personagens que detêm determinadas informações, as quais por vários motivos, ás vezes nobres, às vezes cruéis elas decidiram não revelar.” Luz amarela se acende, sinal indicador de um primeiro tema a ser seguido por nós. Que personagens guardam segredos? Ambos, Hanna e Michael, detêm verdades embutidas embora por razões diferentes.
Como na obra épica clássica de Homero, na narrativa de vida dessas personagens segredos se misturam e definem atitudes, que os comprometem no desenrolar de suas vidas. Pouca ou nenhuma comunicação se mistura com segredos guardados, informações que não são veiculadas, para o bem ou para o mal. Isso é Mercúrio. Ambos detêm segredos importantes.
Isso tudo é o Mercúrio que significa tanto a comunicação, o trânsito de informações como o segredo, que opera então como ausência de oxigenação e de vida.
Parece-nos que aprendizagem é o segundo tema recorrente e importante. A pergunta surge algumas vezes: o que você aprendeu com isso? Outro professor diz sobre a relação entre gerações : “Se gente como você não aprender com o que aconteceu com a gente como eu, então, está tudo perdido.” Tudo está perdido quando não podemos aprender, quando não podemos transitar entre as verdades da vida em diferentes tempos históricos.
Não se trata aqui da aprendizagem típica da educação formal, escolar. Embora observemos como dado importante da narrativa a alfabetização, esta aprendizagem vai além. Observamos o conhecimento de vida construído na interação com o mundo, no relacionamento do ser humano com o seu contexto. Um processo contínuo na relação entre pensamento e prática, fruto da experiência pessoal. No diálogo, no contato aberto entre pessoas e situações. Isto também é assunto de Mercúrio.
Hanna, a personagem feminina, nega a aprendizagem: “Não importa o que sinto. Não importa o que penso. Os mortos estão mortos”, diz com amargura.
Michael confessa para a filha: “Nunca me abri com ninguém.” Michael elaborou essa postura e experimenta uma relação diferente, de abertura, com a filha. Conta para ela, em postura de diálogo, a história de sua vida. Trata-se de alternativa para os equívocos que cometera (primeira cena do filme). Talvez esteja aprendendo, experimentando flexibilidade. Enfim, salva-se. É assim que ele pode resgatar sua vida.
Hanna não tem a mesma sorte. Quando ela se propõe a mudar, em atitude de diálogo, conversando com Michael por livros e leituras, na prisão, entendendo uma nova possibilidade de relacionamento, enfim, é tarde demais. A consciência da solidão lhe pesa, apesar de todo o movimento que fizera para se alfabetizar. Tudo, respiração e pensamento preferiram se calar para sempre, a ouvir a terrível solidão de toda uma vida.
Há uma relação entre os segredos e a aprendizagem, os dois temas selecionados por mim. Enquanto o embotamento secretivo degenera, isola, fragmenta, a comunicação pode curar as feridas. Ela pode gerar trânsito de informações e até de emoções que, processadas, podem gerar conhecimento e libertação, o oposto a segredos. Por sua vez, a aprendizagem areja, abre espaços de diálogo. Como é sempre decorrente de um processo dialógico necessariamente ela é fruto de elaboração, requisitando do indivíduo uma postura ativa. Isso é Mercúrio, são essas suas habilidades. Daí que ele nos ofereça chaves para a leitura do mundo.
Por aí anda ele, então, em meio a essas personagens e histórias. Pelas oportunidades que se criam e transformam as personagens e suas vidas. Nem sempre de forma mais adequada, se pensarmos que para Michael a resolução foi positiva, e para Hanna, nem tanto. Ela não sabia o que significava procurar um emprego junto ao partido nazista. Não tinha noção da responsabilidade dessa decisão. Não percebia o contexto todo. Mas sabia muito bem que não agüentaria a humilhação por não ser alfabetizada. Teve que suportar as conseqüências de suas opções. Michael teve que arcar com o peso de suas atitudes, embora tenha tido condições e tempo hábil para desvendar seus segredos e ampliar sua consciência para além desses limites, resgatando simbolicamente toda sua vida afetiva na relação com a filha, herdeira da narrativa de toda sua vida.
Ele está em meio a essas personagens e em meio a situações de nossas vidas. É um dos instrumentos dos mais pessoais na leitura de um mapa astrológico. É a partir dele que lemos como abrir espaços de mudanças, aprendendo a partir de atitudes de diálogo. Lemos também como materializamos nossas crenças e as fixamos nas experiências. Como percebemos o contexto do mundo em que vivemos. A partir dele podemos fazer a ampliação de nossas consciências em meio ás tarefas da vida, em meio às novas contingências do mundo contemporâneo.
Esses são alguns dos múltiplos significados de Mercúrio em nossa vida e em alguns aspectos do filme, que é complexo em sua trama.
Esta é uma leitura possível. Outras leituras acontecerão.