Astrologia, uma ciência malsucedida -  Outubro, 2008 – www.constelar.com.br


Este texto comenta o livro de David Berlinski, Os segredos do Céu, em São Paulo, Editora Globo em 2005. Segredos do Céu é um estudo sobre a natureza da Astrologia produzido por um não astrólogo. O que esse autor, filósofo e crítico influente do status da ciência contemporânea, tem a nos dizer? Com pós-graduação em matemática, trabalhos em análise de sistemas, biologia, filosofia analítica e filosofia da matemática e a publicação de O advento do algoritmo e O dom de Newton, David Berlinski nos informa neste seu novo livro a respeito da Astrologia. De que Astrologia ele fala? 

O livro partiu de um convite da editora para que ele escrevesse a história da “ciência malsucedida”. Ao longo da pesquisa o Autor descobriu o mundo da Astrologia, e o homem de ciência que ele é, em pelo menos duas passagens do texto, denomina-se, então, astrólogo.
Não terá sido por acaso que ele adotou a Astrologia para si, depois de escrever esse texto. O autor discute, explica, questiona e nos chama ao diálogo o tempo todo. Com clareza e objetividade, ele quer entender “Os segredos do céu”, aqueles que estão no caminho da cultura humana desde os tempos de Assurbanípal.

É com essa personagem histórica que o Autor começa sua descrição ao longo do  tempo. Por doze capítulos, relacionados aos doze signos zodiacais em seqüência cronológica, de Áries a Peixes, ele marca várias fases temporais em diferentes regiões do mundo por onde a Astrologia marcou presença.

Visitamos a Biblioteca de Alexandria, ao lado de Ptolomeu e o Tetrabiblos, passeamos pelos corredores do poder em Roma, ao lado de Domiciano, Augusto e Tibério, tomamos contato com a opulência material e intelectual das Arábias, ao lado de AL Ghazalli, Abu Mashar e Al Kindi, conversamos com as teorias de Santo Agostinho e de Santo Tomás de Aquino, andamos pela sociedade londrina com William Lilly e assistimos à explosão científica com e depois de Kepler e de Newton.

Personagens vivas, em espaços coloridos, nos impressionam a imaginação, enquanto o Autor vai levantando as grandes questões da Astrologia. Paralelamente, ele vai juntando argumentos que possam responder a sua pergunta: por que a Astrologia foi malsucedida? Ele não tem resposta pronta, nem tem interesse em denegrir a imagem da “ciência malsucedida”.

Ao lado de argumentos que elege cuidadosamente - e que nos indicam uma exigente pesquisa, feita em cerca de cinco ou seis dentre as maiores bibliotecas da Europa e dos EUA -, dentro de uma argumentação lógica e particular ao pensamento de um cientista, ele discute a natureza e as limitações das técnicas utilizadas pelos astrólogos, sua função na sociedade, suas posturas.

Sua admiração pela Astrologia não o impede de ser bastante objetivo e crítico em relação a tudo o que acredita ser ineficiente ou inadequado, tanto em relação à função que o astrólogo exerce nas sociedades, como em relação aos critérios teóricos usados por ele.

Pelo contrário, sugere com delicadeza aos astrólogos uma revisão em alguns de seus critérios. Por exemplo, quando descreve o esvaziamento da Astrologia em Londres, no século XVII, logo após Lilly e o sucesso dos almanaques, ele sugere: “Seria sensato ponderar se um drama parecido não estaria acontecendo hoje na nossa presença sem ser notado.” Parece-me que ele enxerga nessa época uma situação que talvez fosse útil ao astrólogo do nosso século levar em conta.

Escolhe temas importantes que percorrem e até dirigem a organização de sua argumentação, construída pouco a pouco, ao longo do texto: Júpiter provoca ou simboliza? Há ação à distância? Como cobrir o espaço entre a causa e o efeito? O eclipse é um sinal ou a causa de determinado fato? 

Ele repete, na verdade, algumas das questões apontadas por nossos críticos: a relação entre evento e movimento dos céus e previsões não acontecem e muitos eventos acontecem e não foram previstos. Ainda lembra a frase bastante presente no discurso dos astrólogos: “As estrelas predispõem, mas não obrigam”, e questiona: Não é um paradoxo? Não há nessa afirmação uma contradição implícita? Tais dúvidas ficam no ar o tempo todo em clima de análise.
Berlinski levanta problemas e junta uma quantidade respeitável de informações. Seu objetivo não foi fazer uma história da Astrologia. Ele oferece ao leitor esse repertório de dados e abre um campo para reflexões.

Ao lado dos dados, reflexões e questionamentos, ele termina por ratificar o mote que lhe serviu de partida. Ainda assim, justifica a presença da Astrologia ao longo dos milênios. Ela responde às expectativas que os homens têm daquilo que o autor define como “obsessão humana”, que é “conhecer o futuro e tentar buscar explicações para eventos imprevisíveis do dia-a-dia.” 

E vai mais longe quando, apesar de mostrar que a Astrologia é uma ciência malsucedida, indica que há uma similaridade entre o pensamento astrológico e o das ciências. Segundo ele, a “natureza peculiar” do pensamento astrológico está presente em todas as ciências. Ambas querem entender e até descobrir como prever eventos. E em ambas restam inúmeras perguntas sem respostas.
Ou seja, parece pouco relevante ao autor que a Astrologia não seja uma ciência tal como são as físicas e as matemáticas. Ela se justifica como resposta a uma necessidade humana e, aos tropeços, com sucessos e fracassos como o texto a descreve, ainda assim, ela se sustenta como parte do conhecimento humano.

Talvez ela seja mais, muito mais. A frase final do livro nos surpreende, como uma espécie de celebração ou saudação:  “Vivam os astrólogos, defensores de doutrinas nas quais não podemos mais confiar inteiramente, mas cujo abandono não podemos suportar.”