A Astrologia de Segredos do Céu: Um diálogo com a natureza humana (1) – Maio, 2008 - www.constelar.com.br

Talvez seja interessante que nós, astrólogos, identifiquemos o quadro possível de imagens pelo qual a Astrologia é representada pelo público. A partir desse repertório podemos avaliar, por exemplo, quais são os pontos delicados e/ou polêmicos em relação a ela.

Não queremos que ela seja percebida de forma menos preconceituosa? Que ela seja mais aceita em suas várias possibilidades? Minha atenção tem-se demorado nos textos escritos por não astrólogos que a apresentam ou a estudam, abordando os conceitos e os valores através dos quais a Astrologia tem sido por eles percebida.

Um desses autores é, por exemplo, David Berlinski, que tem uma grande bagagem cultural, e publicou o livro Segredos do céu, Astrologia e a arte da previsão (2).
Com pós-graduação em matemática, trabalhos em análise de sistemas, biologia, filosofia analítica e filosofia da matemática e a publicação de O advento do algoritmo e o dom de Newton, nos informa neste seu outro livro a respeito dela. De que Astrologia ele fala?

O diálogo com esse Autor não especialista na área me parece ser interessante, visto que ele procura nos dar uma visão do desenvolvimento daquela que responde à “obsessão humana em conhecer o futuro e tenta buscar explicações para eventos imprevisíveis de seu dia-a-dia” de acordo com as palavras das orelhas do livro.

Sem intenção de ser exatamente uma resenha, estes comentários irão abordar apenas dois aspectos do livro: a introdução e o título. Neste estudo, observo as intenções iniciais do Autor, algumas indicações a respeito da Astrologia e da forma como ela é por ele encarada. Um início de conversa ou apenas um convite ao livro de Berlinski, que tem uma série imensa de informações de natureza histórica, interpretadas sempre de maneira rica e inteligente. Na verdade, outro trabalho futuro deverá se ater aos aspectos do texto propriamente dito. A proposta é que pelo título e introdução, num exercício de leitura, já possamos delinear algumas concepções básicas a respeito da Astrologia.

A introdução recebe o título de Sinais e motivos, ação e liberdade e, assim, abre um leque de possibilidades que vai por significados e ações humanas e indica também um caminho para a reflexão profissional de astrólogos.

Nessa apresentação do livro, logo de início e sem meias palavras, Berlinski nos diz que a Astrologia é mal colocada como ciência, “encarada pelos cientistas com pouca seriedade”. Ainda que possa despertar emoções de constrangimento entre os astrólogos, essa afirmação não me parece a questão mais relevante para o Autor. No mesmo parágrafo, aponta a dúvida entre ser ela fracasso ou ciência, que segundo ele, “já é outra questão”. Ele não parece tomar partido, defendendo ou acusando a Astrologia por ser ou não ciência ou ainda ser aceita ou não pelos cientistas. A intenção dessas primeiras afirmações parece ser apenas fazer uma primeira colocação histórica e cultural de seu objeto de estudo. O leitor atento esperará, sem dúvida, uma explicação dessa síntese inicial, ainda que seja ao longo dos capítulos do livro.

Na seqüência dessa colocação histórica e cultural, ele cita os primeiros astrólogos, cujos textos fazem lembrar em alguns aspectos o mundo moderno, visto “através de uma bruma do deserto”. E por essa bruma, surgem causas e efeitos, modelos regulares de funcionamento que são paralelos a “eclipses” e “sombra na Lua”, percebidos como sinais de um código universal, expressos em um cenário em que a inteligência e a intenção humanas elaboram mudanças. O Autor indica, então, o impasse: estrelas são causas ou sinais? Se são causas como efetivam à distância os efeitos dessa influência? E, por outro lado, se são sinais onde ficam a vontade e o arbítrio humanos? E essa “diferença está lá desde o início”. Esse início ganha, com certeza, um tom primordial, basilar. Astrólogos trabalham com a predeterminação? Há liberdade para a ação da vontade humana? Tantos séculos depois, quantos de nós, astrólogos, já não nos fizemos essas perguntas?

Além dessa indicação de questão fundamental na construção do conhecimento astrológico, o Autor aproxima o método da ciência e o funcionamento do desejo humano. O primeiro a conquistar o tempo (para “penetrar o véu do futuro”) e o segundo entre “seres humanos” a planejar, a tramar, como estratégia para imprimir a vontade no mundo da matéria.

A busca por desvendar o futuro funcionaria entre todos (homens de ciência ou não) como verdadeiro laço de união: “O véu por detrás do qual nos abrigamos, e que esconde o futuro dos nossos olhos, permanece onde sempre esteve, em parte roto pela ciência e em parte rasgado pelos nossos desejos. Mas roto em parte apenas e apenas parcialmente rasgado”. Ou seja, são vãs todas as tentativas de romper com o mistério da vida, com o véu insondável do futuro.

E esse mesmo diálogo com a natureza da vida humana tem sido mantido pelos astrólogos desde sempre. Segundo o Autor, “guardadas na memória, mas suas questões, suas aspirações, essas permanecem” ainda. Seria esse desvendar o futuro, o planejar a vontade, o interesse do trabalho astrológico de acordo com as observações de Berlinski?

E, para entender melhor a postura do Autor, nos voltamos para o título do livro. Em português, o título (Segredos do céu) ganhou um subtítulo: A astrologia e a arte da previsão. Essa tradução do inglês (The Secrets of the Vaulted Sky), além de haver incluído esse subtítulo, também excluiu o adjetivo vaulted, que significa abobadado.

Se quisermos entender as intenções do Autor, não podemos deixar de analisar esses detalhes. Detalhes apenas na aparência. Senão vejamos. Em português, eliminou-se a adjetivação que, em inglês, nos oferece uma percepção ampla e até poética da observação celeste que é possível a nós. Eliminar o adjetivo sintetiza a identificação do céu.

Por outro lado, colocou-se um subtítulo que, de certa forma, direciona a leitura a um determinado objetivo e abre outra perspectiva de leitura. Seria essa a perspectiva de Berlinski ao escrever o livro? Será essa a visão da astrologia como arte da previsão que ele coletou em sua pesquisa? Pelo que vimos nas observações a respeito do texto da introdução, podemos dizer que sim. A tradução preferiu facilitar talvez o trabalho para nós, apontando já no título do livro um dado que o leitor poderá ou não provar ser verdadeiro ao longo dos capítulos.

Dessa maneira, em linguagem elaborada, um tanto metafórica e densa, cheia de pontas a nos escapar, o Autor caminha pelos véus, pelos mistérios, entre deuses e brumas, aproximando os homens, sejam cientistas, sejam leigos ou astrólogos. Em uma mesma concepção de vida, em que há o desejo de marcar a vontade humana sobre a matéria, todos tramariam os eventos no mundo da matéria, planejando os passos por dentro das penumbras que os acompanhariam. Todos estariam nessa mesma tarefa com o mistério se impondo a todos. A manutenção desse diálogo com a natureza humana acompanharia a curiosidade astrológica desde os seus inícios, imprimindo-lhe valor.

Bom poder chegar a essas idéias que nos mostram uma Astrologia digna e participante da cultura que se constrói ao longo dos tempos. Bom poder contar com a pesquisa de Berlinski a favor de uma Astrologia que tem a presença qualificada pela natureza de sua busca, apesar da possibilidade de presença de charlatões, como ele também aponta. Como a natureza humana é cheia de paradoxos, por que a Astrologia como as profissões em geral, não apresentaria espertalhões de menos valia?

Não se identificando como astrólogo, nessa introdução, ele nos apresenta uma Astrologia maior. Segundo ele, há um valor nesse campo da cultura, pois, “Os astrólogos mantiveram uma conversa de 4 mil anos.” E “ suas questões, suas aspirações, essas permanecem.”.
Isso talvez seja o que se impõe ao Autor, alimentando seu interesse pela Astrologia. Essa permanência acrescentada às indagações típicas da natureza humana lhe emprestaria consistência. Independentemente do respeito que lhe seja emprestada ou não pelos cientistas ou por quem quer que seja.
Vale conferir dentro do texto quais são os detalhes dessa abordagem astrológica que encanta o autor de Segredos do Céu.

(1) Este texto partiu de uma reunião de estudos na Astrobrasil/SP, em outubro de 2007, de que participaram Elmer Baumgratz, Terezinha Bezulle e Maria Aparecida Ribeiro de Almeida.

(2) BERLINSKI, David . Segredos do céu – Astrologia e a arte da previsão. São Paulo: Editora Globo, 2005.