Rinoceronte – Texto literário, Maio, 2005

Passava por uma esquina. A visão lhe tomou completamente. Era somente uma criança, daquelas que pedem dinheiro, moedas, o que seja. Os cabelos não tão longos eram armados e abriam-se ao redor do rosto. Secos e desgrenhados. Os olhos eram muito acesos. Era magro e tinha uns dez anos. Pele escura. Parecia indiano... índio?  Um calção escuro cor de terra e uma camiseta em trapos pelas bordas das mangas.

Medo? Não. Surpresa. Susto enorme.  Pela vida do olhar, pela estranheza. Et, alien, rinoceronte. Isso. Era algo diferente de tudo, quase um nonsense no dia-a-dia. Um bicho diferente e fora do normal. Rinoceronte. Peludo com bico de pato. Com uma presença a gritar.

Rinoceronte e o olhar infantil pedindo vida. Pedindo licença. E gritando surdo. Rinoceronte grita? Cavalo relincha. A mosca zumbe. O leão ruge.  E rinoceronte? E aquela criança? Como seria o seu som? Ela precisava ter talvez o tom de sua voz. Sua presença era um bemol. Som agudo de dor. O grito que ficou ecoando em seu ouvido.

E o rinoceronte?