Batom e blush – Crônica, Janeiro, 2004

A jovem e bonita vendedora da loja de cosméticos de um shopping começou, então, a passar nos meus cílios um preparado branco, especial para seu alongamento. Com cuidado, depois, passou a cor propriamente dita: um tom de marrom. Foram poucos e precisos gestos com um sorriso nos lábios que acompanhavam as falas da minha cunhada que fazia brincadeiras com a situação.

Depois do almoço, meio cansada e com a face com certeza desbotada, por uma manhã agitada, era interessante a idéia de ver meus olhos delineados de outra forma, mais cheios, mais bonitos, mais qualquer coisa.

Olhei-me no espelho, o espelho diria em seguida que ela tinha feito um grande trabalho. Fiquei entusiasmada. E continuei a acompanhar minha cunhada pela exploração das novidades em matéria de cosméticos. Tínhamos o tempo que minha mãe e irmão tomariam para fazer compras em um supermercado vizinho à loja.  Potes pincéis, tubos, caixinhas e outras caixas, esponjas ... tralha para tudo e todos os gostos. Era uma aventura por brilhos, cores, espessuras e promessas de  beleza. Coisas femininas demais para a bisbilhotice de qualquer olhar masculino  naquele momento.

Lá foi minha cunhada, então,  experimentar um novo batom, com um brilho especial para tornar os lábios mais grossos..E, com atenção quase religiosa, escolhemos as cores que mais se adequariam à nossa pele e roupa. Tom de rosa para ela e de vermelho-tomate para mim. Mais um outro pormenor: o lápis do tom do batom.  Foi aberto então espaço  para a ponta de lápis colorido nos lábios, antes do brilho propriamente dito.

Ritual cheio de detalhes importantes, todos significativos demais naquele tempo de transformação em que o feminino flutua entre  o divino e o diabólico, buscando o equilíbrio exato sem romper com as hierarquias e sem deixar de tocar os mitos mais fecundos.
“Ainda faltava algo...” - confabularam a atendente e a cunhada, agitadíssimas, olhando para mim, possivelmente percebendo que haviam ganhado o meu compromisso na brincadeira - rebelde mais que descrente que eu era no início...  Faltavam o delineador nos olhos e o blush  nas faces. E lá foi a mão delicada riscar as pálpebras nos lugares certos,  desenhando os traços que dariam mais luz aos olhos agora mais que vivos. No meio da face, alguns toques com o pincel farto. Pronto. A maquiagem estava completa !

E o espelho não negou. Eu via outra mulher à minha frente, refletida.

Olhei-me então de verdade. Estava muito mudada. Era outra quando havia entrado naquele salão de requinte quase oitocentista (ou seria um laboratório de alquimia medieval ?).
Havia se formado uma confraria naqueles momentos entre nós, três mulheres a serviço do feminino. São presenças que fazem a vida. Talvez essa união, mais do que os recursos materiais, fosse a responsável por essa experiência de lindeza.

Uma animação vinda de dentro me irrigava os olhos e o peito.. Aos poucos, identifiquei melhor a sensação de euforia que me habitava então. Eu flutuava naquela sensação, ao suspender  um tanto a normalidade do dia-a-dia.

E num  momento de fantasia, -  bêbeda ...-  pela beleza que me fora presenteada, dei-me também a poesia. Voei até a memória mais próxima de um homem  que tendo se aproximado de mim, fez-me sonhar com a.possibilidade do amor, uma forma de amor, qualquer forma.

Possível príncipe que ficou no quase, no intervalo, na falta, naquela pequena diferença, interstício fundamental para se atingir o espasmo de vida que conecta com o maior da natureza humana.  Será que ele se  transformou em sapo ?

E fomos tomar cerveja ( ou era vinho ?) e navegamos  no tempo em que as utopias ainda eram pródigas com a juventude  e  sonhávamos com um mundo melhor em que não houvesse sofrimento nenhum, somente contatos bons entre pais e filhos, pessoas e amantes.

E fui feliz por receber seus beijos sem perceber o cheiro de cigarro – que, na realidade, me perturba tanto -  e, sem sentir o medo de me entregar na relação e me perder, que  me tolhe os movimentos quando em contato com o toque carinhoso.

E ele me ouviu e captou o que eu quis dizer e entendeu além das palavras que não precisaram ser ditas, pois antes de proferi-las ele já as tinha ouvido porque partiam do meu coração

E foi assim sem censura, sem cheiro, sem dados de dura realidade, espasmo de vida, cúmulo de alegria, em nome da beleza que eleva moralmente  homens e  mulheres em sua humanidade, e em nome da poesia que é mais que tudo amor, que eu pude receber o que de melhor ele pôde me dar e  eu pude lhe dar o que não pudera antes por puro medo.

E, pulo no escuro, salto no precipício, metáfora da cumplicidade, intimidade na miséria humana que se transforma em generosidade maior, milagre do amor, pudemos então nos  olhar como amigos e principalmente, como  homem e mulher,  sem culpa de ser felizes.